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Dança salva jovens do tráfico nos morros

JB Online – [19/JUN/2005]

Os cariocas Bárbara Melo Freire, 19 anos, e Irlan da Silva, 14, nunca se encontraram. Ela mora sozinha em Berlim e está de malas prontas para ser solista da Cia de Balé Volkstheatre, em Rostock, na Alemanha. Irlan vive com os pais no Complexo do Alemão, na Zona Norte, e em abril trouxe para casa o primeiro lugar do concurso de balé Youth American Grand Prix, realizado em Nova York. Realidades diferentes? Que nada. Bárbara nasceu e foi criada no Morro Pavão-Pavãozinho, em Copacabana. Aos 11 anos, começou a freqüentar as aulas do projeto Dançando para não dançar e não parou mais. Driblou a falta de dinheiro, a proximidade com o tráfico e aos 14 foi para a Alemanha.

 

Irlan segue um caminho parecido. Há pouco mais de uma semana, conquistou uma vaga na Cia Jovem El Paso de Dança e se prepara para passar um mês em São Paulo. Dançar no exterior, segundo a diretora da Cia, é uma questão de tempo.

 

– Ele recebeu convites para fazer cursos de verão, mas quero que ele termine os estudos e viaje quando estiver mais velho, para trabalhar numa grande companhia – conta Mariza Estrella.

 

Filho da dona-de-casa Maria da Penha e de Ivanildo da Silva, líder operacional de uma transportadora, Irlan já decidiu seguir os conselhos da diretora:

 

– Vou esperar a hora certa. Às vezes, parece que essas coisas não estão acontecendo comigo. Foi tudo rápido, no susto.

 

Foi no susto também que ele começou a dançar. Convidado por um primo, aos 8 anos Irlan passou a freqüentar uma escola de balé da prefeitura, no Engenho de Dentro.

 

– Eu não tinha muitas atividades e convenci minha mãe a deixar que eu fosse ter aulas. Ela ficava preocupada, porque eu era pequeno e ia com meu primo. Gostei de cara e escolhi sapateado e jazz – lembra.

 

Três anos depois, uma de suas professoras o indicou para tentar uma bolsa no Centro de Dança Rio, no Méier. Foi aí que as coisas começaram a mudar.

 

– Passei no teste e comecei a fazer aulas de balé clássico. Meu pai chegou a me dizer que era coisa de mulher – recorda.

 

Mas Ivanildo não foi o único a estranhar as aulas clássicas.

 

– O Irlan gostava mesmo de sapateado e no início não queria fazer balé. Com o tempo, foi entendendo que tinha talento – conta a mãe.

 

Talento que surpreendeu Mariza Estrella em Nova York:

 

– Não imaginava que ele fosse tirar o primeiro lugar. Me emocionei quando o vi no palco. Eram 116 candidatos.

 

Irlan carimbou o passaporte para os EUA depois de vencer um concurso em Campos de Jordão. Como prêmio, ganhou US$ 500 que só poderiam ser sacados se ele fosse concorrer em Nova York. Para levá-lo aos EUA, Mariza pediu ajuda ao Ministério da Cultura, à prefeitura e aos professores de dança. Até os vizinhos ajudaram com rifas. O sacrifício valeu a pena. Além de voltar com o ouro, Irlan trouxe muitas histórias na bagagem.

 

– Parecia um filme, porque eu nunca imaginei que fosse chegar lá. Andei de avião e visitei vários lugares – conta Irlan, que trouxe presentes para a família e dois objetos que desejava há tempos: uma máquina digital e um aparelho de CD:

 

– Não tomei sorvete nem comi pizza para economizar – recorda.

 

Filha de um cozinheiro e de uma vendedora, a solista Bárbara Melo Freire começou a dançar por acaso e teve que convencer a mãe, Antônia, a deixá-la fazer parte do projeto.

 

– Ela tinha medo que um tiroteio acontecesse no morro quando eu estivesse voltando da aula, às 22h. Dizia sempre que eu devia tomar cuidado e evitar passar perto das bocas-de-fumo – lembra Bárbara.

 

Um ano depois de ingressar no Dançando, ela fez prova para a escola Maria Olenewa:

 

– Fiz sem esperança, mas passei. Depois de dois anos, apareceu a bolsa para a Alemanha. Disse sim no ato, mas tive medo. Não falava inglês ou alemão.

 

O apoio de Thereza Aguilar, coordenadora do Dançando, foi fundamental. Mas a menina deu trabalho.

 

– Meu primeiro ano foi horrível, não tinha amigos, sentia frio e muita saudade. Só quando voltei ao Brasil e vi que a minha realidade era o morro, passei a querer que meus pais e a Thereza se orgulhassem – conta Bárbara.

 

Jornalista: Carolina Benevides

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